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Capacidade Contributiva e Progressividade no IPTU

Eduardo Maccari Telles
Procurador do Estado, Advogado e Professor Universitário no Rio de Janeiro, Mestrando em Direito Tributário pela UCAM-RJ

 Sumário: 1. Introdução. 2. Da Interpretação do Princípio da Capacidade Contributiva e da Verificação Acerca de Violação da Emenda a Clausulas Pétreas. 3. Da Forma de  Aplicação da Capacidade Contributiva nos Impostos Reais. 4. Observações Adicionais. 4.1 Desnecessidade de previsão constitucional expressa para aplicação da progressividade. 4.2 – Exclusividade da Progressão em Razão do Valor do Imóvel. 5. Conclusões.

1. Introdução

A Constituição de 1988, ao tratar da competência dos municípios para instituir o Imposto sobre Propriedade Predial e Territorial Urbana previu, desde logo, que tal imposto poderia ser progressivo no tempo, de forma a assegurar o cumprimento da função social da propriedade.

Não obstante previsão da progressividade do IPTU apenas com função extrafiscal, alguns municípios brasileiros, exercitando a competência fiscal que lhes foi atribuída pela Constituição, instituíram a cobrança do Imposto sobre Propriedade Predial e Territorial Urbana – IPTU com alíquotas progressivas de acordo com o valor do imóvel, que por óbvio não se enquadrava na função extrafiscal mencionada expressamente pela Constituição, surgindo desta forma enorme controvérsia acerca da possibilidade da cobrança do tributo nestes termos.

O Supremo Tribunal Federal decidiu reiteradamente sobre o tema inadmitindo a progressividade do IPTU com base no valor do imóvel, sob o argumento de que a única progressividade prevista constitucionalmente para o IPTU era de caráter extrafiscal e que, ademais, não caberia progressividade fiscal no referido imposto, visto que o mesmo tem caráter real.

O acórdão abaixo transcrito é emblemático das seguidas decisões do Excelso Pretório:

"RE-153771 / MG - RECURSO EXTRAORDINARIO

Relator(a): Min. MOREIRA ALVES

Publicação: DJ DATA-05-09-97 PP-41892 EMENT VOL-01881-03 PP-00496

Julgamento: 05/09/1997 - Tribunal Pleno

EMENTA: - IPTU. Progressividade. - No sistema tributário nacional é o IPTU inequivocamente um imposto real. - Sob o império da atual Constituição, não é admitida a progressividade fiscal do IPTU, quer com base exclusivamente no seu artigo 145, § 1º, porque esse imposto tem caráter real que é incompatível com a progressividade decorrente da capacidade econômica do contribuinte, quer com arrimo na conjugação desse dispositivo constitucional (genérico) com o artigo 156, § 1º (específico). - A interpretação sistemática da Constituição conduz inequivocamente à conclusão de que o IPTU com finalidade extrafiscal a que alude o inciso II do § 4º do artigo 182 é a explicitação especificada, inclusive com limitação temporal, do IPTU com finalidade extrafiscal aludido no artigo 156, I, § 1º. - Portanto, é inconstitucional qualquer progressividade, em se tratando de IPTU, que não atenda exclusivamente ao disposto no artigo 156, § 1º, aplicado com as limitações expressamente constantes dos §§ 2º e 4º do artigo 182, ambos da Constituição Federal. Recurso extraordinário conhecido e provido, declarando-se inconstitucional o sub-item 2.2.3 do setor II da Tabela III da Lei 5.641, de 22.12.89, no município de Belo Horizonte."

A Emenda Constitucional no 29, de 14 de setembro de 2000, modificou a redação original do §1o do art. 156 da Constituição Federal, que passou a vigorar com a seguinte redação:

"Art. 156 - ...

§1o Sem prejuízo da progressividade no tempo a que se refere o art. 182, §4o, inciso II, o imposto previsto no inciso I poderá:

I – ser progressivo em razão do valor do imóvel;

II – Ter alíquotas diferentes de acordo com a localização e o uso do imóvel".

A partir desta modificação, com claro e explícito caráter de correção legislativa de decisão judicial, tendo por objetivo primordial possibilitar a progressividade fiscal do IPTU, surgiu nova controvérsia, agora no sentido de questionar sobre a constitucionalidade da alteração realizada.

2. Da Interpretação do Princípio da Capacidade Contributiva e da Verificação Acerca de Violação da Emenda a Clausulas Pétreas.

Eminentes nomes da doutrina tributária nacional como Ives Gandra da Silva Martins, Miguel Reale e Aires F. Barreto se posicionaram no sentido de que tal alteração constitucional não seria possível, por ferir cláusula pétrea.

O raciocínio seguido pelos versados juristas parte da redação literal do art. 145, §1o da Constituição Federal, que assim dispõe:

"Art. 145.

(...)

§1o Sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte, facultado à administração tributária, especialmente para conferir efetividade a esses objetivos, identificar, respeitados os direitos individuais e nos termos da lei, o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas do contribuinte."(grifos nossos)

A leitura que fazem os juristas supracitados do artigo é no sentido de que o princípio da capacidade contributiva só permitiria a utilização da progressividade em impostos pessoais e que a modificação de tal texto configuraria ofensa conjunta aos princípios da capacidade contributiva e da isonomia, sendo que ambos os princípios constituem cláusulas pétreas na Constituição, inalteráveis pelo Poder Constituinte Derivado por meio de Emendas.

Ilustrativo o seguinte comentário:

"O parecerista acima referido teve oportunidade de demonstrar que tal exegese – de os princípios constitucionais, mormente os tributários, comporem a couraça constitucional protetora, dita pétrea – decorre de interpretação sistemática, fruto da conjugação do disposto no §2o , do art. 5o, com o art. 60, §4o, IV, ambos da Constituição. Por outras palavras: a) os princípios (§2o do art. 5o) configuram direitos individuais, b) igualdade e capacidade contributiva são princípios, c) sendo princípios, configuram cláusulas pétreas, à luz do disposto no inciso IV, do §4o, do art. 60; logo, d) não podem ser modificados por emenda constitucional.

Repisemos: no campo tributário, um dos princípios mais conspícuos é o da capacidade contributiva. E, sendo princípio, não pode ser alvo de emenda tendente a aboli-lo. Esse princípio encerra, em seu bojo, uma autorização e uma limitação. Visto da perspectiva positiva, o princípio contém autorização para a criação de impostos progressivos, desde que estes sejam pessoais. Examinado da perspectiva negativa, o princípio veda a instituição da progressividade, quanto a impostos de natureza real."

Não obstante a qualidade dos pensadores citados, ousamos discordar do raciocínio expendido. Para formação da crítica a tal pensamento é fundamental, porém, explanar as premissas das quais partimos a fim de que se compreenda a construção da crítica.

Ainda que não desconheça o posicionamento do Supremo Tribunal Federal, por maioria, quando do julgamento da ADIn tratando do IPMF, no sentido de que o princípio da anterioridade estaria incluído entre as cláusulas pétreas, não vislumbro, à primeira vista, os princípios e disposições contidos no capítulo do Sistema Tributário Nacional como cláusulas pétreas.

Tais princípios e disposições somente poderão ser considerados cláusulas pétreas quando decorrentes dos direitos previstos no caput do art. 5o da Constituição. Exemplificando, o princípio da legalidade tributária não poderia ser afastado pelo Poder Constituinte Derivado uma vez que decorre diretamente do direito à liberdade e à propriedade e espelha garantia já prevista no art. 5o, II da Constituição.

Neste sentido, o art. 60, §4o, IV, que veda proposta de emenda tendente a abolir os "direitos e garantias individuais", estaria protegendo os brasileiros de Emendas Constitucionais que tivessem por fim abolir os direitos elencados no caput do art. 5o ou as garantias deles decorrentes. Portanto, a Emenda Constitucional que instituiu a progressividade no IPTU só poderia ser considerada inconstitucional caso ferisse a capacidade contributiva e a isonomia tributária enquanto decorrentes do princípio da igualdade.

Neste ponto, é necessário verificar se efetivamente o princípio da capacidade contributiva contido na Constituição apresenta a autorização para a criação de impostos progressivos, desde que sejam pessoais, e veda a instituição de progressividade, quanto a impostos reais, e ainda se a modificação de tais premissas estaria ferindo a igualdade.

Entendo que tais premissas tidas como certas por alguns doutrinadores não correspondem à correta interpretação do dispositivo constitucional contido no art. 145, §1o. Relembrando, o artigo dispõe que "sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte." Ainda que persista a discussão acerca do alcance da expressão sempre que possível, compartilho da opinião de Hugo de Brito Machado no sentido de que esta se aplica somente ao caráter pessoal dos impostos, visto que, como bem observou o jurista:

"... pode-se dizer que o elemento sistemático realmente conduz a tal entendimento, pela razão, aliás muito simples, de que sempre é possível graduar os impostos segundo a capacidade econômica do contribuinte. Assim, e tendo em vista que nem sempre é possível atribuir-se caráter pessoal aos impostos, o entendimento da prescrição constitucional em exame outro não pode ser."

Ademais, a premissa de que o art. 145, §1o autoriza a progressividade nos impostos pessoais e a veda nos impostos reais é de todo equivocada. O dispositivo constitucional não faz menção à progressividade, mas sim à graduação segundo a capacidade econômica do contribuinte, que não são expressões sinônimas. Conforme bem nos ensina Ricardo Lobo Torres, a capacidade contributiva "abre-se para uma pluralidade de possibilidade de concretização, inicialmente através de subprincípios, para alcançar grau maior de concretitude nas normas de imposição." A progressividade, assim como a proporcionalidade, a seletividade e a personalização, segundo o autor, são subprincípios da capacidade contributiva, através dos quais o princípio é implementado.

Pelo exposto, o art. 145, §1o deve ser entendido no sentido de que os impostos pessoais devem ser criados preferencialmente aos impostos reais uma vez que os primeiros realizam de forma mais plena a capacidade contributiva, sem implicar, portanto, na impossibilidade de utilização da graduação da capacidade contributiva nos impostos reais e sem implicar, a princípio, na aplicação da progressividade sobre os referidos impostos, visto que esta é subprincípio através da qual se implementa o princípio da capacidade contributiva.

A fim de legitimar ou negar a aplicação da progressividade nos impostos reais, cabe afastar primeiro a justificativa de aplicação da progressividade nos impostos reais pela tese, um tanto simplista, de que inexiste distinção entre impostos pessoais e reais. Tal teoria de que todos os impostos são pessoais e reais, por sempre atingirem um sujeito de direito e um patrimônio, definitivamente não nos seduz. A base do argumento, que critica uma suposta contaminação da Ciência das Finanças Públicas sobre o Direito e se baseia na idéia de que é sempre sobre um patrimônio que a norma tributária incide e é sempre uma pessoa que suporta seu ônus, em que pese a argúcia de sua construção e a veracidade dos fatos alegados, não se sustenta por dois motivos.

Primeiro, porque a distinção clássica entre impostos pessoais e impostos reais foi construída simplesmente para diferenciar a tributação que se institui sobre a pessoa do obrigado como um todo e a tributação sobre uma coisa específica, distinção esta que não perdeu seu valor.

Segundo, e mais importante, porque a Constituição Brasileira acolheu expressamente tal distinção no seu art. 145, §1o, ao indicar a tributação pessoal pelos impostos como preferível sobre a tributação real. A dicção do artigo indica que, por opção do constituinte originário, o ordenamento jurídico nacional contempla a distinção e a utiliza para nortear a produção legislativa.

Afastada a identidade entre impostos pessoais e reais, faz-se mister recordar a distinção entre os mesmos. Pessoal seria o imposto que se institui em função da pessoa do obrigado, considerando sua capacidade contributiva global e Real seria o imposto que se cobra em razão de parcela do patrimônio de alguém, configurada numa coisa, sem visualizar sua situação global.

Apenas pela definição já se confirma a vocação dos impostos pessoais como verdadeiros realizadores da capacidade contributiva. Isto não significa, porém, que os impostos reais não sirvam de objeto de realização do princípio, visto que todo fato gerador de imposto deve ser signo presuntivo de riqueza apta a ser tributada. Como bem nos ensina José Marcos Domingues de Oliveira:

"... capacidade contributiva é conceito que se compreende em dois sentidos, um objetivo ou absoluto e outro subjetivo ou relativo.

No primeiro caso, capacidade contributiva significa a existência de uma riqueza apta a ser tributada (capacidade contributiva como pressuposto da tributação), enquanto no segundo, a parcela dessa riqueza que será objeto da tributação em face de condições individuais (capacidade contributiva como critério de graduação e limite do tributo)."

Da leitura do trecho transcrito, não resta dúvida de que os impostos reais são instrumentos de aplicação da capacidade contributiva no seu sentido absoluto. Exemplificando, os proprietários de veículos automotores e de imóveis urbanos ou rurais são tidos pelo legislador constituinte como detentores de capacidade contributiva.

No tocante ao sentido relativo da capacidade contributiva (graduação e limite do tributo) pode-se também dizer de plano que a mesma se aplica aos impostos reais, servindo como prova a proporcionalidade que costuma se aplicar sobre tais impostos. O pagamento proporcional do tributo indica, por si só, que os proprietários de bens com maior valor ficarão expostos a uma tributação proporcionalmente maior, o que já constitui uma graduação.

3. Da Forma de  Aplicação da Capacidade Contributiva nos Impostos Reais

Resta descobrir, porém, se a proporcionalidade é o único ou mesmo mais adequado subprincípio apto a ser aplicado nos impostos reais, não restando dúvida de que a progressividade é, sem dúvida, o mais apropriado dos subprincípios para se aplicar nos impostos pessoais. A partir desta verificação é que se poderá saber se a aplicação da progressividade no IPTU acaba por violar a isonomia, como alegam alguns doutrinadores, caso em que se poderia eventualmente visualizar uma inconstitucionalidade da Emenda no 29/00.

O principal argumento daqueles que defendem a impossibilidade de utilização da progressividade no IPTU é de que tal aplicação conduziria a situações injustas. Tais defensores costumam exemplificar sua tese comparando a situação de um proprietário de um único imóvel de alto valor com a do proprietário de vários imóveis pequenos que somados alcancem ou até ultrapassem tal valor.

Vale transcrever o exemplo utilizado por Aires F. Barreto:

"Deveras, como o discrímen se dá pelo valor de cada imóvel, ficam em condições altamente privilegiada (infringindo a Constituição) os inúmeros proprietários (de casas, lojas, unidades autônomas destinadas à locação ou de loteamentos inteiros), cujos imóveis, de per si considerados, têm um valor venal baixo, em confronto com os titulares de um só imóvel de R$ 150.000,00 ficar sujeito ao IPTU, em razão de uma alíquota de 1,8%, e outro, titular de centenas de imóveis de pequeno valor, for submetido ao imposto, com base em alíquotas de 0,5%, ter-se-á a pôr às avessas as diretrizes desse princípio. Mais flagrante fica essa inversão em legislações que isentam do IPTU os proprietários de imóveis, cujo valor seja de pouca expressão relativamente ao dono de inúmeras propriedades."

No exemplo citado, com a alíquota progressiva do IPTU, sem dúvida que o proprietário do imóvel de maior valor unitário pagará mais imposto, ainda que a soma total dos valores dos imóveis pertencentes aos dois proprietários seja igual, o que leva os defensores da tese a concluir pela afronta ao princípio da isonomia.

Tal argumento de que a progressividade nos impostos reais afronta a isonomia é falacioso. A par de considerações já feitas por Hugo de Brito Machado no tocante a concessão de isenções somente a proprietários de um único imóvel e no tocante a repercussão do ônus do IPTU aos locatários, é perfeitamente possível construir argumento semelhante demonstrando que a proporcionalidade fere a isonomia.

Levando-se em conta a consagrada idéia de que o princípio da isonomia ou igualdade consiste em tratar igualmente os iguais e desigualmente aos desiguais, na medida de sua desigualdade, atente-se para a hipótese proposta. Comparando-se a situação de um proprietário de 1 imóvel de R$ 100.000,00 e a de outro proprietário de 30 imóveis de R$ 200.000,00 e levando-se em conta que a alíquota é mesma, 1%, por exemplo, não parece restar dúvida de que, em tese, o proprietário dos 30 imóveis tem mais capacidade contributiva e, no entanto, os dois estarão sendo tributados na mesma proporção, ainda que o patrimônio de um seja 60 vezes maior que o do outro. Certamente, neste caso, não estariam sendo tratados desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade.

Ocorre que o presente argumento também se apresenta falacioso. Isto porque os impostos reais não se prestam para avaliar a capacidade contributiva global do contribuinte. Desta forma, é impossível saber se o proprietário de um único imóvel num município, e que será tributado como nos exemplos acima, é proprietário de 30 imóveis num outro município ou é proprietário de uma frota de 300 táxis ou, ainda, é dono de vários latifúndios improdutivos.

Recordando o exemplo clássico trazido dos bancos acadêmicos, a senhora idosa, que se encontra em péssima situação financeira e que percebe mensalmente uma pensão de valor ínfimo, ao herdar um imóvel de médio valor não poderá se furtar ao pagamento do IPTU, devendo até vendê-lo, se não puder mantê-lo, visto que o imóvel, de per si considerado, denota a existência de capacidade contributiva, sem apontar, porém, a capacidade global do contribuinte. A injustiça, portanto, não estará nunca na proporcionalidade ou na progressividade, mas na impossibilidade de visualização, na tributação de natureza real, da capacidade contributiva global do pagador.

Concordamos com Hugo de Brito Machado que melhor seria se a tributação fosse sobre o valor total dos imóveis de um mesmo contribuinte mas, de todo modo, conforme exposto acima, não seria possível saber se cada contribuinte tem imóveis em outros municípios ou demais manifestações de capacidade contributiva tributadas por outros entes (veículos, renda, aplicações financeiras, etc.).

Nada disto implica, porém, na idéia de que a progressividade não possa ser aplicada aos impostos reais. Da mesma forma que se dá na escolha do fato gerador, ou seja, quando se presume que determinado fato indique a capacidade do contribuinte de ajudar no custeio das despesas estatais mais do que os não praticantes do referido fato, é perfeitamente possível presumir que aqueles que têm imóveis de maior valor possam contribuir mais com as despesas estatais do que aqueles que possuem imóveis de baixo valor. A chave da tributação neste caso está em considerar individualmente o objeto tributado a fim de realizar a graduação, face às limitações da tributação de natureza real.

Tal técnica já existe, a rigor, na seletividade aplicável ao IPI e ao ICMS, impostos de natureza real. A aplicação da seletividade em função da essencialidade parte da presunção de que os produtos mais essenciais serão utilizados por pessoas com menor capacidade contributiva e que os produtos menos essenciais serão utilizados apenas por aqueles com maior capacidade contributiva.

Por óbvio que existem exceções e, conseqüentemente, injustiças, se visualizada a situação global do contribuinte. Quando um milionário e uma pessoa da classe média compram feijão ou caviar estarão arcando com um ônus tributário rigorosamente igual, ainda que a capacidade contributiva global delas não seja igual. Tal exceção não prejudica em nada a presunção inicialmente feita, que é regra e como tal deve ser considerada.

Traçando-se um paralelo entre os impostos reais diretos e indiretos, não há dúvida de que a doutrina e a jurisprudência não divergem, a princípio, da possibilidade de alíquotas diferenciadas nestes últimos, configurada na seletividade acima exposta, por força da presunção de capacidade contributiva dos consumidores dos diferentes tipos de produtos, quanto mais quando tal previsão já vem expressa no texto constitucional.

No entanto, quando semelhante graduação é proposta em impostos reais diretos, através de Emenda Constitucional, parte da doutrina, conforme anotado, alega violação aos princípios da capacidade contributiva e da isonomia.

Exemplificando a contradição, podemos dizer que não existe contestação quanto à presunção de que quem compra um automóvel com motor 2.0 tenha maior capacidade contributiva do que o comprador de um carro popular, com motor 1.0, e por isto deverá arcar com um maior ônus financeiro decorrente da tributação pelo IPI. No entanto, estaria proibida a progressividade do IPVA porque não se pode presumir que o proprietário de um carro de R$ 35.000,00 tenha maior capacidade contributiva do que o proprietário de um carro de R$ 15.000,00, o que se nos afigura um contrasenso dispensável.

4. Observações Adicionais.

4.1 Desnecessidade de previsão constitucional expressa para aplicação da progressividade

Cabe ainda afastar a idéia de que a progressividade, assim como a seletividade, só poderiam ter aplicação sobre impostos se expressamente prevista tal aplicação na Constituição

A rigor, como subprincípios de aplicação da capacidade contributiva, que por sua vez decorre do princípio da isonomia tributária, a progressividade e a seletividade, assim como a proporcionalidade e a personalização poderiam ser aplicadas a qualquer tempo nos impostos, não necessitando de previsão expressa na Constituição, assim como não precisa estar expresso o próprio princípio da Capacidade Contributiva.

Não se desconhece, porém, a repetida jurisprudência do STF, da qual peço vênia para discordar, no sentido de que, sob a égide da Constituição de 1988, ao menos antes da Emenda no 29/00, não se permitia a aplicação da progressividade sobre impostos reais.

Desta maneira, em termos práticos é evidente que a referida Emenda veio possibilitar uma aplicação da progressividade que a Corte Suprema do país não considerava possível e, como manifestação do Poder Constituinte Derivado que é, a nova disposição só não seria aplicável caso violasse cláusula pétrea o que, conforme já defendido, acreditamos não ter ocorrido.

4.2 – Exclusividade da Progressão em Razão do Valor do Imóvel

Cabe analisar ainda se a progressividade no IPTU só poderia ser feita em razão do valor do imóvel. Antes da Emenda Constitucional no 29/00, nas tentativas feitas por diversas municipalidades de aplicar a progressividade ao IPTU, algumas legislações municipais, como a do Município do Rio de Janeiro, estabeleceram alíquotas diferenciadas de acordo com a área e a com a utilização dada ao mesmo.

No rigor técnico, a progressividade implica em alíquotas maiores a medida que aumenta a base de cálculo do tributo. Desta forma, seria incorreto falar em progressividade a partir da área e a localização do imóvel, visto que a área de determinado imóvel não é elemento formador da base de cálculo do tributo.

Ademais, especificamente no tocante à diferenciação de alíquotas com base na área do imóvel, tal tipo de graduação não nos parece adequada a aplicação do princípio da capacidade contributiva. Isto porque, ainda que a área do imóvel pudesse servir para eventual presunção de capacidade contributiva, o que já se reputa falho (imóveis de áreas iguais em locais diversos costumam apresentar valorizações distintas), já existe instrumento de aplicação da capacidade contributiva muito mais eficaz, qual seja, o próprio valor venal do imóvel.

Este caso particular não é de todo impeditivo de que se vislumbrem outras formas de presunção de capacidade contributiva, tais quais a quantidade de imóveis de propriedade de um determinado contribuinte ou mesmo o uso dado ao imóvel. Note-se, porém, que a construção de eventual diferenciação de alíquotas a partir de aspectos que não estejam ligados a base de cálculo do tributo se impõe seja feita com excessiva cautela, por conta dos efeitos práticos não fiscais que podem daí advir. Tome-se, como exemplo, a possível tributação diferenciada sobre os proprietários de vários imóveis que poderia repercutir, eventualmente, sobre os locatários destes imóveis, por força de disposição contratual.

Reputa-se então que a diferenciação da tributação tomando como base aspectos como uso, localização e até mesmo área dos imóveis tem aplicação mais apropriada para fins extrafiscais, onde o aspecto de diferenciação já é escolhido de forma a atender a finalidade extrafiscal pretendida. Neste sentido, a EC 29/00 trouxe aos Municípios a possibilidade de instituir alíquotas diferentes de acordo com a localização e o uso do imóvel, com a finalidade de prestigiar a ocupação de determinadas áreas em detrimento de outras, de acordo com critérios adotados pelo plano diretor. 

5. Conclusões

De todo o exposto no presente trabalho, podemos retirar as seguintes conclusões:

O princípio da capacidade contributiva, previsto no art. 145, §1o da Constituição Federal e que decorre igualmente do princípio da isonomia, prescreve ao legislador ordinário que dê preferência a tributação por meio de impostos pessoais, pois estes realizam melhor a justiça na tributação, sem que, por isso, o princípio deixe de ter aplicação nos impostos reais.

Os princípios, direitos e normas contidos no Sistema Tributário Nacional só poderão ser considerados cláusulas pétreas se decorrentes dos direitos previstos no art. 5o, caput, da Constituição.

A aplicação do princípio da capacidade contributiva nos impostos reais se realiza na escolha do fato gerador mas pode se realizar também através da graduação das alíquotas a partir de outros aspectos presuntivos de capacidade contributiva, como a essencialidade do bem tributado, no IPI e no ICMS e o valor venal do imóvel ou do automóvel, no IPTU e no IPVA.

A aplicação da progressividade das alíquotas do IPTU com base no valor venal do imóvel não viola os princípios da capacidade contributiva ou da isonomia, visto que a presunção de que os proprietários de imóveis de maior valor têm mais capacidade contributiva do que os proprietários de imóveis de menor valor é tão válida quanto a própria presunção de que a propriedade de imóvel indique capacidade contributiva, presunção esta que legitima a cobrança do imposto.

A presunção de capacidade contributiva, no caso de impostos reais, só pode ser feita de per si em cada tributação, visto que na tributação real não é possível avaliar a capacidade contributiva global do contribuinte.

A par dos aspectos práticos de correção legislativa da jurisprudência anterior do STF, para utilização da progressividade não seria necessária expressa previsão constitucional, uma vez que esta é subprincípio de aplicação da capacidade contributiva que, por sua vez, deriva diretamente da isonomia.

Em que pese a possibilidade de diferenciação de alíquotas por aspectos não ligados à base de cálculo dos impostos, tal tipo de tributação encontra sua melhor aplicação quando destinada para fins extrafiscais, como pareceu pretender o legislador constituinte derivado com a previsão constante do art. 156, §1o, II da Constituição, com a redação dada pela Emenda no 29/00.