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Perpetuação - Crianças
ciganas bricam em acampamento na cidade de Curitiba (PR). |
Sair da marginalidade e
conquistar a cidadania. Esse é o maior sonho da população cigana brasileira. Desde
quando chegaram ao País, são alvo de um brutal preconceito e discriminação. A maioria
dos brasileiros já ouviu, em algum momento da vida, principalmente na infância,
histórias relacionadas a roubo de crianças, galinhas, roupas do varal e toda sorte de
lendas possíveis. O imaginário nacional desconhece essa cultura milenar e os seus
principais fundamentos. Os problemas que atormentam o grupo hoje começam já na
dificuldade para conseguir o registro de nascimento. O documento é o primeiro passo para
o início da vida do cidadão brasileiro. Sem ele, não se consegue ter acesso a
praticamente nenhum dos serviços públicos. Soma-se a isso o agravante de não terem
endereço fixo, exigência pouco questionada.
Os ciganos são, na sua maioria, povos nômades, que tiveram origem há quatro mil anos,
na região do Punjab, ao noroeste da Índia, hoje o Paquistão. Chegaram ao Brasil em
1574, expulsos da Europa pelo Estado, em decisão que atendia à Igreja. Segundo relatos,
nesse período, Portugal e Espanha cortavam as orelhas dos ciganos e os jogavam às
galeras para serem deportados. Isso porque eram considerados um povo diabólico. No
Brasil, existem dois grandes grupos: os Calons (ciganos de origem ibérica, principalmente
espanhola) e os Rom (originários do leste europeu).
Desde 2003, com a criação do CNPIR (Conselho Nacional de Promoção da Igualdade
Racial), órgão que faz parte da estrutura da Seppir (Secretaria Especial de Políticas
de Promoção da Igualdade Racial) da Presidência da República, uma parcela da
comunidade cigana passou a acalentar o sonho de mudança desse quadro por meio de
políticas públicas que levem em consideração as suas particularidades.
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Vanguarda - Carismático,
Cláudio Domingos Iovanovitchi é o porta-voz dos povos ciganos no Conselho Nacional de
Promoção da Igualdade Racial. |
Cláudio Domingos
Iovanovitchi, 48, presidente da Apreci (Associação de Preservação da Cultura Cigana) e
representante do grupo no CNPIR é a ponta de lança dessa comunidade. Com uma história
diferente, ele não perde de vista os problemas que os atingem. Nascido na cidade de Ponta
Grossa (PR), sempre teve residência fixa. Isso porque sua mãe era muito conhecida na
arte de ler cartas.
Sua família mudou-se para Curitiba (PR) em 1979 e lá se fixou. Iovanovitchi estudou em
escola pública, onde por pouco não concluiu o antigo primeiro grau (hoje ensino
fundamental). Fez um curso de artes cênicas. Casou-se com Neiva Camargo, cigana e artista
de circo. Tem uma filha e uma neta, mas a família, segundo ele, é grande e chega a 300
pessoas.
Iovanovitchi afirma haver hoje no Brasil cerca de 600 mil ciganos. O dado, não oficial,
faz parte de uma tese acadêmica.
Com a proximidade da 1ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, que
acontece de 30 de junho a 2 de julho, em Brasília, a movimentação entre as lideranças
do grupo em todo o País já começou grande. Isso porque pela primeira vez na história
do Brasil os ciganos terão voz em uma arena que reunirá sociedade civil e governo em
torno de políticas públicas para a promoção da igualdade racial. Para organizar e
conhecer as propostas do grupo, a Seppir realiza, no dia 16 de maio, a Audiência Pública
Cigana, em Curitiba.
Iovanovitchi tem uma lista de reivindicações prontas. As principais são: registro de
nascimento e, em conseqüência, todos os documentos necessários para o exercício da
cidadania para os ciganos. Atualmente, a grande maioria não pode tirar carteira de
identidade, certidão de casamento, título eleitoral, carteira de motorista ou certidão
de óbito. Eles reivindicam ainda o direito de ir e vir sem serem importunados pela
polícia, isenção de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para a compra de
veículos e apoio governamental para a criação de centros para a recepção de ciganos
em cidades com mais de 200 mil habitantes.
Esses centros estariam prontos para recepcionar os povos nômades, com banheiros, caixa
postal, internet, luz e água. Assim, seria possível à comunidade cigana saber quais
cidades oferecerem infra-estrutura para recepcioná-los.
O carismático e agitado presidente da Apreci
conversou com o Destaque Seppir e contou um
pouco do cotidiano de sua gente. Leia abaixo trechos da entrevista.
Expectativa
A oportunidade de mudança que temos com a Conferência Nacional de Promoção da
Igualdade Racial, organizada pela Seppir, é a primeira na história do meu povo no
Brasil. E muito importante. Vamos identificar e mobilizar as lideranças ciganas em todo o
País para esse momento especial. Seguiremos para Brasília.
Dom natural
Nós somos exímios comerciantes. Conseguimos poupar aquilo que produzimos. No entanto,
para permanecer no sistema e circulando, temos que constantemente enfrentar a sanha da
polícia, que invade os acampamentos e corta as barracas durante o sagrado descanso.
Infra-estrutura
Somos o único povo que não tem problema de habitação. Vocês não vão ver ninguém
reivindicar residência para nós. Mas aí precisamos de luz para iluminar a barraca e se
recorre ao "gato" na rede elétrica: é quando somos acusados roubar energia.
Chega uma hora que os ciganos precisam acampar em algum lugar, pois a noite não tarda e
não tem jeito. Ou é terreno público ou particular. Precisamos do acesso à água.
Quando encontramos um hidrante do Corpo de Bombeiros, é uma festa. Imagine só: nós não
temos direito à água. Melhorar essa infra-estrutura é muito importante para nós.
Registro civil
Há um problema inicialmente que é a documentação, que toda a pessoa civil tem direito.
Para conseguirmos transmitir herança, ter propriedade, temos que tê-la. É muito
engraçado verificar que, quando se reivindica isso, a resposta é sempre a mesma:
"mas você não tem nem Certidão de Nascimento, não podemos dar a identidade".
Conseqüentemente, não podemos ter toda uma série de documentos. Além da maioria não
saber ler, não pode ter propriedade nem nada. Então, o que é feito? Andamos com ouro,
com dinheiro, com bens portáteis. Isso, pelo volume e falta de lugar para guardar, acaba
se perdendo. Quem consegue andar com R$ 100 mil, valor de uma casa hoje em dia?
Curitiba
Diante desse quadro, os ciganos de Curitiba se insurgiram contra esse estado de coisas,
até porque estudamos e, acima de tudo, somos cidadãos brasileiros, conscientes dos
nossos direitos e deveres. Eu conheço lei, conheço as pessoas, tenho um nome a zelar.
Não admito que um cigano seja expulso de onde quer que seja. Isso não é possível.
Em Curitiba e no Paraná, já não se põe a mão em barraca cigana porque nós vamos para
cima e a gente derruba até o secretário de Segurança, se for o caso. Não vamos aceitar
isso, pois temos o direito de ir e vir - e permanecer, se quiser. Com isso, o tema virou
Lei Estadual. A Apreci, entidade de utilidade pública, criada em 1996, teve um papel
importante. No ano passado, a prefeitura da cidade de Curitiba cedeu uma área em regime
de comodato com 30.600 m2 para a construção de um acampamento temporário para os
ciganos que passam pela cidade.
Em busca de direitos
A nossa reivindicação não está centrada somente nas condições econômicas. É muito
mais que isso. Quando o cigano não tem cidadania ele não tem visibilidade. Não tem
nada. Ele não tem inclusive o direito de utilizar um sanitário.
Muito embora estejamos acostumados às agruras sociais, temos necessidades. Queremos
comer, se manter dignos. Para sobreviver temos duas opções: ou vender nossos produtos ou
ler a sorte. A nossa personalidade só é exteriorizada no ceio da família, na nossa
coletividade, que pode ser constituída de cinco a seis famílias normalmente. São grupos
pequenos que vagam por este País afora.
Queremos o cigano como cidadão brasileiro, com o direito de estar na fila do hospital, na
fila da previdência. Pois nem esse direito nós temos.
Justiça
Existe uma coisa muito bonita que se chama Cris Romani, um conselho de anciões
que se reúnem para resolver as pendengas surgidas entre as famílias. Um exemplo exótico
é se algum desavisado mexer com a mulher do outro, ou se comprar um carro e não pagar. A
Cris Romani é o nosso tribunal, a nossa Lei. Os mais velhos decidem porque para nós
velho não é incômodo. São bibliotecas.
Eles, para nós, são fonte de informação e são muito venerados. E as crianças são a
nossa perpetuação. Então vocês não verão nunca velhos ciganos num asilo ou crianças
ciganas no orfanato.
História e religião
Em vários países do mundo sempre fomos perseguidos. Invadimos a Espanha junto com os
mouros e dominamos o país durante 400 anos. E esse período foi o de maior sossego que o
povo cigano teve. Mas em alguns momentos, com o avanço do catolicismo, começaram as
perseguições novamente. Eu falo isso sem nenhum constrangimento. Temos como fé o bem e
o mal. Temos muitos ciganos umbandistas, kardecistas, espíritas. A fé cigana tem origem
há dois mil anos. Nós ainda temos que fazer a nossa doutrina, pois o que existe hoje
não nos representa. Não nos completa espiritualmente. Falta talvez um ecumenismo, pois
é isso que o cigano é: ecumênico. Respeita a tudo e a todos. Eu não vou dividir meu
povo pela fé. Acreditamos nas forças da natureza: água, fogo, terra e ar. Mas muitos
adotam em seus países a religião da maioria.
Literatura
Num livro reverenciado, Memórias de um Sargento de Milícias, (escrito por Manoel Antonio
de Almeida), somos descritos desta forma: "Com os emigrados de Portugal veio também
para o Brasil a praga dos ciganos. Gente ociosa e de poucos escrúpulos, ganharam eles
aqui reputação bem merecida dos mais refinados velhacos: ninguém que tivesse juízo se
metia com eles em negócio, porque tinha certeza de levar carolo. A poesia de seus
costumes e de suas crenças, de que muito se fala, deixaram?na da outra banda do oceano;
para cá só trouxeram maus hábitos, esperteza e velhacaria, e se não, o nosso Leonardo
pode dizer alguma coisa a respeito. Viviam em quase completa ociosidade; não tinham noite
sem festa. Moravam ordinariamente um pouco arredados das ruas populares, e viviam em plena
liberdade. As mulheres trajavam com certo luxo relativo aos seus haveres: usavam muito de
rendas e fitas; davam preferência a tudo quanto era encarnado, e nenhuma delas dispensava
pelo menos um cordão de ouro ao pescoço; os homens não tinham outra distinção mais do
que alguns traços fisionômicos particulares que os faziam conhecidos". Esse livro
é obrigatório para a entrada em muitos vestibulares. E é assim que os ciganos são
retratados. Enquanto criança é usado: "cuidado que eles vão te roubar".
Quando chega na usina do conhecimento, que é a universidade, lê isso.
O resultado nós vemos quando o um casal ciganinho chega em uma cidade de 20 mil
habitantes para tirar os documentos. O burocrata já pensa: "meus Deus, onde essa
mulher roubou essa criança?". E aí faz duas perguntas mortais: "que dia nasceu
essa criança e em que cidade?". Voltamos à questão de tempo e espaço. Eu não sei
nem onde eu estava há oito anos.
Reivindicações
A principal reivindicação dos ciganos é ter acesso a todos os bens e serviços
disponíveis ao restante da população, reconhecimento como minoria étnica e não
omissão do governo brasileiro. Precisamos ainda estruturar o Núcleo de Resgate da
Cidadania, em Curitiba. É condição sine qua non. Tem que ser feito. É o CEP, o lugar.
Temos uma grande parceria com a Anceabra (Associação Nacional dos Coletivos de
Empreendedores Afro-brasileiros) para mobilizar mulheres negras excluídas neste desafio.
No local, teríamos a confecção de jogos de cama, mesa e banho, feitos por mulheres
negras. E o cigano vende de porta em porta, nessa modalidade nós somos maiores que a
Avon. Só com isso podemos gerar 300 empregos diretos.
Marketing cigano
Para baixar custos e concorrer com as grandes tecelagens precisamos de uma doação de
tecidos. A criação do "Pano Zero" para nós é importante. Até nós podermos
ter a condição de estar no mercado. A cigana vai ter um produto de qualidade e ainda
jogamos um misticismo em cima: "neste lençol mágico é possível casar em 24
horas". O povo vai correr atrás do cigano para comprar o produto. |