Destaque Seppir
25 de junho a 1o de julho de 2005 - no 042 - Ano 1

Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial


Religião, preconceito e solidariedade segundo a doce
Iyá Nitinha, uma guardiã da cultura do candomblé


Iyá Nitinha

  Protegida - Areonilthes da Conceição Chagas, a Iyá Nitinha: tradição e doçura de uma guardiã do candomblé.


A Constituição Federal, em seu artigo 5º, inciso VI, é clara: "é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias". Infelizmente não é essa a liberdade que desfrutam os praticantes de religiões de matriz africana no Brasil. O preconceito contra eles é um dos mais renitentes. Feiticeiros, enviados do demo, curandeiros, macumbeiros, entre outros termos, sempre pejorativos, já fazem parte do cotidiano brasileiro. Recentemente um dos grandes jornais do País estampou no alto de página do seu caderno mais importante a seguinte manchete: "Lula leva até mãe de Santo para Roma". Muito se protestou. Retratação, nem pensar.

Poucos conseguem ver a mesma manchete com um representante de outra religião. Esse quadro deixa claro o preconceito arraigado na sociedade brasileira não só nos seguimentos menos informados, mas também em parcelas importantes da nossa elite.

Parteira desde os 17 anos, até hoje, na casa dos 70 anos, se necessário, ela realiza partos. A iyalorixá Areonilthes da Conceição Chagas, a doce e energética Iyá Nitinha d'Oxum, uma das mais respeitadas sacerdotisas do terreiro Ilê Iyá Nassô, mais conhecido como Casa-Branca do Engenho Velho, em Salvador, na Bahia, tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), e legalmente reconhecido como o mais antigo terreiro de candomblé ainda existente e de que se tem notícia no Brasil. Não por coincidência, Iyá Nitinha é também uma das mais antigas iniciadas na religião dos orixás no Brasil, que congrega todas as formas religiosas de matrizes africanas aqui praticadas, que hoje, segundo dados do Censo Demográfico 1991-2000 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), congrega cerca de 0,3 % da população brasileira.

Iyá Nitinha foi convidada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para participar das cerimônias fúnebres do papa João Paulo 2o. Por causa de contratempos na chegada ao aeroporto Antonio Carlos Jobim (Galeão), no Rio de Janeiro, perdeu o vôo que a levaria para Brasília, de onde seguiria para Roma. Ganhou mídia pelo fato. O que muitos não sabem é que mãe Nitinha é uma das guardiãs das tradições religiosas africanas preservadas até hoje no Brasil, mesmo diante de todos os preconceitos.

Nasceu em Salvador (BA), "há muito tempo atrás", segundo ela. À sua volta, reúne gente de todas as classes sociais. Desde personalidades do mundo artístico - as tais celebridades - até pessoas sem ter onde cair que batem à sua porta. Estudou magistério e se formou professora. Olhando a movimentação em sua casa no bairro de Miguel Couto, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, o Ilê Nossa Senhora das Candeias, percebe-se que, antes de tudo, os terreiros são verdadeiros centros de assistência social e espiritual. O terreiro comandado por mãe Nitinha, por exemplo, oferecerá curso de alfabetização para jovens e adultos a partir do segundo semestre deste ano. A sacerdotisa, cercada de filhos e filhas, conversou com o
Destaque Seppir em uma terça-feira de maio. Em meio a consultas para encaminhamentos de atividades, falou sobre sua vida, religião, preconceito e do Brasil. Leia abaixo os principais trechos.


Vista do terreiro de Iyá Nitinha

     Ilê - O bairro de Miguel Couto, no subúrbio do Rio de Janeiro, visto da casa em que Iyá Nitinha acolhe seus filhos.

Sina
Desde muito nova ouvia os parentes falarem "essa menina vai ser iyalorixá", principalmente meu avô Bernardino. Ele era amigo da minha mãe-de-santo. Meus pais biológicos não eram do candomblé. Minha mãe-de-santo era de Obaluayê. Um dia lá em casa passei mal e desmaiei. Minhas tias disseram que iriam me levar para o hospital, mas levaram para a Casa Branca, onde fui iniciada.

Casa Branca
A casa foi fundada na Barroquinha, Com Iyá Nassô, Iyá Kala, Iyá Detá e Bámgbóse Obitiko. Foram as três senhoras mais um senhor que, com esses nomes em ioruba, juntos fundaram a casa na Barroquinha e depois foram para o Engenho Velho, na avenida Vasco da Gama, em Salvador.

O povo não aceita o candomblé porque são conhece. Nós, negros, somos inteligentes. Os que não gostam querem ser os donos do mundo, mas não podem. Eu sou mãe-de-santo, jogo búzios, atendo os clientes e sei que conhecem. Aí conversam com a imprensa e dizem que o candomblé não existe, que têm medo. É tudo mentira. Quase todo mundo conhece o candomblé, dos grandes aos pequenos.

Até tu, Brutus?
O evangélico reza e tal. Quando dá a tardezinha ele bate na minha porta e diz: "Quero falar com mãe Nitinha". Eu pergunto: "Mas o senhor não é evangélico???". "Sim, mas eu preciso falar com a senhora!". Eu sempre digo: "Então entra meu filho, vambora falar". Acontece muito isso.

O pastor aqui do lado é meu amigo. Se ele tiver que vir, vem. Agora o povo do candomblé não vai na casa de pastor não. Não vai mesmo. Vai na igreja católica, batizar, crismar, consagrar, rezar... Isso vai.

Candomblé
É uma coisa muito séria. Eu fiz santo pequena. Com quatro anos. Sou filha-de-santo do Engenho Velho, que é a Casa Branca, a primeira de candomblé do Brasil. O candomblé é uma religião muito boa, muito respeitosa. O candomblé veio com os africanos. É Oxum, Iemanjá, Ogum...

Preconceito
É aquela pessoa que não sabe nem o que é o candomblé. Não aceita. E tem outros que dizem que não aceitam. Mas aceitam. O candomblé é uma religião muito boa, muito louvada.

Eu fiz santo pequena. Sei que foi com tia Maximiana Maria da Conceição, uma africana. Tinha outras duas, a Luzia, Sophia, elas eram africanas. Elas eram parentas de santo. Foram essas mulheres que quando eu sonhei da vida. Sonhei que eu era feita por essas senhoras. E aprendi as coisas do candomblé com essas senhoras.

Outra praia
Eu não tenho nada a ver com umbanda. Respeito, mas eu sou do candomblé mesmo. Tem muita gente lá em São Paulo que tem um candomblé certo, direito, puro. Que não é misturado. A gente percebe nas cantigas, na chegada do santo. Candomblé é candomblé. Umbanda é umbanda. Não tem nada a ver. O candomblé é puro, puro, puro. A religião deles, como eles fazem, como eles gostam. A da gente é diferente.

Os nossos ancestrais africanos trouxeram assim. Nós já encontramos assim. Dia de Corpus Christi tem uma grande missa no Pelourinho, onde fica a igreja dos pretos. Lá, celebra-se a missa a São Jorge. E tem outras igrejas. A do Engenho Velho é na igreja dos pretos. A do Gantois é no Rio Vermelho, na igreja de Nossa Senhora de Santana.

Rio de Janeiro x Salvador
Eu levo muito tempo. Porque como eu faço parte da roça (casa de candomblé), eles precisam de mim e eu preciso da casa. Depois eu volto pra cá. Eu estou no Rio de Janeiro há mais de 40 anos, mas todo ano vou à Bahia. Fico uma temporada por causa das festas da roça. Na festa de Oxossi, por exemplo, eu sempre vou. Tenho uma casinha lá. A casa do candomblé é muito grande e cada um tem o seu cantinho para ficar. Lá exerço o cargo de Iyá-kequerê (mãe pequena), a segunda pessoa depois da Iyalorixá.

Roma via Varig
O funcionário chegou e eu disse: "Olha, eu vou acompanhar o Presidente da República no enterro do papa, em Roma". Ele fez uma cara de descrédito e descaso. Ele achou pouco. Me viu crioula. Estava muito bem arrumada. O que esse funcionário fez foi uma coisa muito feia. Não podia olhar de cima até em baixo como fez. Mostrou que não gosta dos negros. Ainda deram risada, ficaram na porta debochando. Eu acho que tem muito racismo no Brasil. Não costumo passar por isso. Iria a Roma para fazer minha parte, segundo a religião que sigo. Ele não quis que eu fosse. O dia que eu for ver o Lula, que um dia eu vou, sei que vou, falarei para ele o que aconteceu.

Graças a Deus todo mundo sempre me respeitou, me aceitou e gostou. Até no colégio, onde sabiam que eu era do candomblé. As coisas no Brasil têm que mudar. Esse moço da Varig que fez isso, entreguei aos santos. Toda a maldade que fez ficou com ele.

Educação
Estudei no colégio Getúlio Vargas, lá no Barbalho. Depois fui para o Instituto Normal da Bahia. Conclui o magistério.

Eu sou filha de espanhol. Minha mãe era mulata do cabelo cacheado e era muito bonita. Mas eu não digo isso não. Sou filha de Deus, sou filha das águas, sou filha de Oxum!

Combate ao preconceito
Certo dia, uma freira falou: "Mãe Nitinha, eu quero que a senhora olhe nos búzios pra ver como vai ser este ano pra gente". Eu disse: "Irmã! Louvado seja Deus!". Ela disse: "Faz isso, mãe Nitinha. Por mim". Veja só: uma freira!!!

O brasileiro é assim. O Brasil vai mudar muito. Pois nós somos gente, gostamos do divino Espírito Santo. Os santos da igreja e do candomblé irão ajudar. Não vamos ficar toda vida nesta situação. Um dia diremos assim: "Graças a Deus que nós mudamos!".

Só do presidente Lula ter a sensibilidade para convidar uma mãe-de-santo para o enterro do papa é uma boa prova disso. O pessoal ao saber que iria uma mãe-de-santo já sabia que era do candomblé. É um ponto positivo. Criticaram, falaram mal e ele não deu importância e fez o que devia fazer. É o primeiro governo que faz essa distinção. Ele é uma pessoa boa. Veio aqui, nunca tinha estado em uma casa de candomblé. Ainda não era Presidente. Veio para um almoço.

Muita gente acha que ele não deveria ter me convidado, principalmente uma mãe-de-santo. Os inimigos fazem tudo para complicar ele, mas só sairá no dia que for marcado. Eu gosto muito dele e peço muita a Xangô para tomar conta dele.

Em Brasília
Fomos a Brasília pedir ajuda para o candomblé da gente. Estamos precisando. A parede caiu e precisa consertar. O outro é o telhado. Nós estamos precisando de ajuda. Agora mesmo o Engenho Velho tá caindo o telhado.

Aqui eu tenho uma série de atividades que ajudam as pessoas. O número de pessoas que são auxiliadas aqui é muito grande. Precisamos de algum apoio do governo.

Os projetos sociais, por exemplo, poderiam acontecer. O feijão que dão para as casas de candomblé na Bahia não chegam todo mês. No candomblé tem muita pobreza. Precisamos de tudo. Tem muito filho-de-santo pobre. Sem emprego. Muita gente não vai à casa do candomblé porque não tem o dinheiro da condução. Nem todos têm uma mãe de santo como eu, que não sou rica, mas Deus e Oxum me ajudam. Teve uma moça doente aqui recentemente e pediu para eu pagar o médico para ela tratar os problemas de bronquite. Aí eu pedi para os meus conhecidos ajudar. Muitos filhos-de-santo que trabalham em hospitais dão esse auxilio. O primeiro socorro sempre acontece aqui. Indico, chamo alguém e se demorar para resolver o problema eu brigo, reclamo.

Assistência
Eu tenho pena, por isso que eu ajudo. Se você chegar aqui, e eu estiver fazendo uma bolsa, eu digo: "Vem cá dá um dinheirinho aqui para ajudar a comprar feijão. Intera aqui".

Outro dia chegou uma moça aqui com cara de triste. Eu disse: "O que é que você tem???". "Eu não comi nem ontem nem hoje". Poxa! Aquilo doeu meu coração. Peraí. Dei um jeito de lá, dei um jeito de cá. Peguei debaixo do travesseiro a carteira, tirei um dinheiro e disse: "Tome vá comprar sua comida". A criatura tinha dois dias que não comia. Tem que ter ajuda para esses pobres. A fome é uma coisa brava.

Juventude
Deus tem que ter muita misericórdia da juventude. Eu peço muito. As coisas que acontecem no mundo são terríveis. Os jovens precisam ter caminhos. Que Deus abençoe a todos!


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1a Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial:


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